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A questão da sociabilidade em rousseau

Comunicação apresentada no I Colóquio Rousseau: Verdades e Mentiras, em Araraquara-SP, em 14 de novembro de 2004; e no I SINAFEPOL: Simpósio nacional de filosofia sobre ética, política e linguagem, na UEL, em 27 de Agosto de 2004. Nome do Autor: Edgar Rogério da Costa – Mestrando em Filosofia – UNICAMP RESUMO: Este texto visa a abordar a maneira como Rousseau desenvolveu a questão da sociabilidade em seus escritos de maior destaque. O filósofo que de maneira crítica e autônoma denunciou a superficialidade das aparências e o poder da opinião, pensou igualmente alguns modelos de sociabilidade que, segundo ele, poderiam ajudar na formação do homem tanto no seu aspecto individual quanto coletivo. Esses modelos se desdobram nas tarefas de educar o indivíduo para o seu ingresso na sociedade (Emílio); de retornar ao convívio familiar como fonte de alegria e de satisfação (Nova Heloísa); e de reorientar o amor-próprio para fins cívicos (Contrato Social), para citar alguns exemplos. O convívio em sociedade e as pressões externas que ele exerce sobre os indivíduos desencadeia boa parte daquilo que é responsável pela infelicidade deles, por seu afastamento do que é natural e bom, enfim pela degeneração dos seus costumes. Nesse sentido, os personagens criados por Rousseau têm a finalidade tanto de chamar a atenção para os males advindos da vida social quanto indicar caminhos que podem ser trilhados na busca de sua solução. Este texto acompanha esta reflexão, pontuando conceitos importantes que lhe servem de base. Palavras-chave: convívio social, amor-próprio, natureza. “Eis-me, portanto, sozinho na terra, tendo apenas a mim mesmo como irmão, próximo, amigo, companhia. O mais sociável e o mais afetuoso dos humanos foi dela proscrito por um acordo unânime”.1om estas palavras inicia Rousseau um dos últimos de seus escritos, o qual seria interrompido por sua morte em julho de 78. Ao fim de sua vida, ele escreve de maneira aparentemente despreocupada, mas na verdade de forma melancólica e saudosista. Abalado pela idéia de que o perseguiam, de que um complô havia sido montado contra ele, nos Devaneios ele faz uma viagem para dentro de si mesmo, num percurso que apresenta conflitos internos de sua personalidade e problemas de relacionamento, passando por diversos temas como a mentira, a felicidade e algumas lembranças que ele conservou. O tema da sociabilidade aqui é abordado de maneira difusa, ora se fechando a observações de ordem extremamente pessoal, ora se abrindo a influências externas. Os Devaneios são um exemplo de como os anseios pessoais do autor e os temas desenvolvidos por ele em suas obras possuíam uma relação íntima; de como, em Rousseau, vida e obra se confundem perfeitamente. O convívio social foi um dos grandes motes que ele explorou em sua filosofia, mote que permeou tanto seus escritos antropológicos e sociais quanto autobiográficos. Rousseau tornou-se um obstinado por compreender as suas características, bem como seus desdobramentos, tendo em vista sua própria experiência pessoal: da trajetória de errante, começada na adolescência, à procura de emprego e de reconhecimento, até a vida adulta, esquiva e retirante. As frustrações com colegas escritores, suas dificuldades financeiras que o obrigaram a trabalhar como criado e como copista, e principalmente o desalento que lhe sobreveio ao constatar que a desigualdade e a opressão eram os traços mais comuns da sociedade, fizeram com que ele tomasse o firme partido de avaliá-la, de maneira severa, para por a nu todas as suas mazelas. Quando escreve o Discurso sobre a desigualdade Rousseau dá ao seu trabalho um caráter antropológico, na medida em que descreve passo a passo as primeiras relações entre os homens e como elas foram se ampliando, até chegar o ponto em que a vida tornou-se- lhes mais complexa e a presença do outro cada vez mais necessária. Como sabemos, o desenrolar dessa história culminou na instituição da propriedade privada e na sociedade civil. A cada passo dado nesta direção, entretanto, o homem se distanciou mais e mais da vida natural, deixando de ser auto-suficiente e feliz, e perdendo com isso aquela condição de igualdade em relação aos seus semelhantes. Os primeiros artifícios criados em sociedade forçaram a criação de outros tantos, que, no fim de tudo, estabeleceram distinções entre 1 Devaneios do caminhante solitário, p.22. coisas e pessoas, sendo que o próprio valor e a importância dados a cada uma delas também foram relativizados. Ao abordar em forma de discurso este turbilhão de eventos, o filósofo buscou não apenas narrar uma seqüência de fatos que sucederam no tempo, mas esmiuçar os prejuízos e as desgraças que estes fatos engendraram. O Segundo Discurso foi uma continuidade ao tom estimulado e crítico utilizado por Rousseau em 49, no Discurso sobre as ciências e as artes. No primeiro dos Discursos o filósofo contrapõe-se a uma tendência imperiosa em sua época: a supervalorização do talento artístico e do luxo. Por meio do recurso à história, ele toma alguns exemplos, como Egito e Grécia, para provar que o crescimento das ciências e das artes caminhou em direção à corrupção dos valores morais. Ao afirmar isso, ele bateu de frente com o próprio espírito da época, época das luzes, dos déspotas esclarecidos e dos filósofos, que tinha principalmente na arte a mais forte expressão da renascença. No Segundo Discurso, Rousseau lança mão de outros recursos, como os relatos dos viajantes – muito em voga nos seus dias – para estabelecer comparações e demonstrar como a sociedade dita ilustrada, totalmente manipulada pela opinião dos ricos e poderosos, estava recoberta pelo vício e pela vaidade. Seu olhar perscrutador devassou os detalhes mais sutis, sua crítica feroz destacou as É a tal ânsia de falar de si, a esse furor de distinguir-nos, quase sempre nos colocando fora de nós, que devemos o que há de melhor e de pior entre os homens: nossas virtudes e nossos vícios, nossas ciências e nossos erros, nossos conquistadores e filósofos, isto é, uma multidão de coisas más contra um pequeno número de coisas boas. (.) se vemos um punhado de poderosos e de ricos no cume das grandezas e das fortunas, enquanto a multidão rasteja na obscuridade e na miséria, é porque os primeiros só dão valor às coisas de que gozam por estarem os demais privados delas e porque, sem mudar de estado, deixariam de ser felizes se o povo deixasse de ser miserável. (Discurso sobre a desigualdade, p. 111-112) A visão que tinha Rousseau dos povos ditos “selvagens” e a sua simpatia pelas sociedades mais rústicas, elementos muito presentes no Segundo Discurso, denotam o seu amor pela simplicidade e por tudo o que considerava mais próximo à natureza. Esta foi tornando-se para ele não só o seu guia e padrão de julgamento, mas a sua inspiração no combate ao que julgava inútil e deletério no homem social. Ele chamou a atenção para o fato de que o homem perdera muito da piedade que existia dentro de si, sentimento que o fazia sentir-se mais fraterno e compassivo com o semelhante; sua composição física tornara- se mais vulnerável, e seu corpo, fraco e susceptível a inúmeras doenças. Ao contrário do que ditam as leis da natureza, estampadas em todo gênero de viventes, que pregam a resignação à dor e ao destino, o ser humano, teimando em olvidá-las, diz não aos seus ensinamentos e insiste em criar para si simulações, como os remédios, que, ao invés de curá-lo, deixam-no cada vez mais dependente e débil. As investidas feitas por Rousseau destacavam os prejuízos tanto sociais quanto individuais, oriundos da trilha que o ser humano tomou: cada vez mais distante da natureza, cada vez mais dependente do convívio social. É claro, por outro lado, que faculdades como a perfectibilidade, a memória e a imaginação, constituintes do homem, tinham a tendência ao desenvolvimento, e inevitavelmente o conduziriam para a convivência social. Porém a questão é ver como se deu este tipo de aproximação com o outro, como é a sua convivência na atualidade, e o mais importante: como ela poderia ser. A crítica de Rousseau, portanto, não permanece estática, pois a investigação do passado e do presente do ser humano tem a finalidade de servir de base para pensar um devir. Judith Shklar postula que esse devir em Rousseau tomou a forma de uma utopia, que, apesar de não aparecer descrita nestes termos, permanece subentendida. Ela escolheu o termo por ele designar de forma precisa o tipo das criações de Rousseau, umas vezes mais reais, outras vezes fictícias, destinadas a mostrar por que caminhos e através de que mecanismos o homem ainda poderia ser livre, feliz e senhor de si. Para Shklar, as duas facetas desta utopia se acham reunidas no cidadão espartano e no homem de vida doméstica, dois grandes troncos de argumentação do pensamento rousseauniano que, pela importância, serviram de título ao seu livro: Men and Citizens. Diante do convívio social exacerbado que hoje vigora, impossível de se voltar atrás, trata-se não mais de uma escolha entre natureza e sociedade, mas de uma escolha entre educação civil e educação doméstica2 Apesar de sua forte imaginação, Rousseau não queria que sua proposta resvalasse numa simples quimera, por isso se esforçou para dar-lhe concretude e provar que o que idolatrava era algo possível de execução. Ele buscou, para tanto, nas figuras de Esparta e de Roma a imagem do cidadão perfeito, que tem seu aspecto emocional e psíquico completamente absorvido pelo coletivo, e o amor-próprio reorientado para fins cívicos. Para sustentar a educação doméstica, ele remontou à Idade de Ouro, período em que homens e mulheres, já vivendo em comunidade, ainda não tinham sido totalmente contaminados pelos males do amor-próprio nem pelas misérias que posteriormente viriam a adquirir em sociedade. Desse estado de “juventude do mundo”3 família como um círculo fechado, independente e auto-suficiente,4s preconceitos 2 Men and Citizens, p.5. 3 Expressão cunhada por Lucrécio e utilizada por Rousseau na 2ª parte do Segundo Discurso, p.93. 4 A idéia de auto-suficiência possui íntima relação com a expressão “bastar-se a si mesmo!”, repetidamente utilizada por Rousseau principalmente no Emílio e na Nova Heloísa. A julgar pelo tipo da sociedade não entram, ou, se entram, são por ela neutralizados. Além disso, a família tinha para Rousseau uma aura que combinava simplicidade e gratuidade, o que lhe conferia a distinção de ser o lugar propício, por excelência, para uma sociabilidade sadia e para a educação das novas gerações. Os ideais de Rousseau foram encarnados em personagens célebres, como Emílio, Júlia, Wolmar e o Vigário de Sabóia. Dotados de uma personalidade singular, cada um deles busca realizar o desafio de bastar-se a si mesmo, encarando, a seu modo, as dificuldades de vencer a opinião e as pressões sociais, abraçar a virtude e levá-la a cabo e resignar-se aos princípios da natureza para viver uma vida livre e feliz. Naquele que foi o mais forte e aguerrido de todos os seus personagens, Rousseau moldou com grande maestria o que imaginava ser o essencial para se manter em sociedade. O Emílio reúne a um só tempo as crenças e as esperanças do filósofo, um projeto de educação ideal que Rousseau sentiu palpitar dentro de si, clamando por uma existência concreta. Para ele, só uma educação realmente diferente daquela que imperava poderia servir como alternativa ao modelo de sociabilidade vigente, por isso os longos anos dedicados a trabalhar a personalidade do menino, recolhendo-o numa vida campestre, alegre e ocupada; a construção passo a passo do seu caráter; a adaptação, desde o nascer, aos princípios da natureza; e o afastamento de todo tipo de obstáculo que pudesse atrapalhá-lo Alguns aspectos chamam a atenção na educação de Emílio: a força, a independência e a paz interior. Ocupado desde a infância com afazeres e com exercícios, o jovem cresce um amante dos desafios, para os quais sempre se mostra corajoso e intrépido. Esse aprendizado lhe é fundamental sobretudo quando a idade adulta chega e ele tem de encarar os sofrimentos da vida, como o abandono da família e a vida como escravo. Diante das tribulações, ele busca dentro de si a força para vencê-las e nunca se deixa levar pela opinião ou por qualquer outra voz que não a de sua consciência. A paz interior é fruto do exercício de uma vida tranqüila e simples, sem luxo e sem ambição, buscando apenas o necessário e limitando-se a ser o que é. A educação de Emílio tem, nesse sentido, um forte traço individualista: a idéia do ‘vencer a si mesmo’ aparece conjugada com o ‘vencer os prejuízos sociais’. Isso ocorre porque a sociedade é responsável pela criação de uma rede de dependência, cuja influência é determinante na vida e na personalidade das pessoas. Vencer, sob esse aspecto, equivale a ouvir mais a própria consciência em detrimento da opinião de família que Júlia constitui ao lado de Wolmar, pode-se atribuir à família pensada por Rousseau um caráter auto-suficiente. alheia. E ouvir a consciência implica dizer não aos apelos exteriores irresistíveis, que nos conduzem não raro ao vício e ao desregramento. Entretanto, entre a pura aceitação do dever e a sua colocação em prática há um hiato, para o qual o formador religioso de Emílio Shklar interpreta a figura de Emílio como a primeira das chamadas “estratégias morais”5qual pode ser sintetizada no triunfo do autodomínio. De fato, como ela mesma observa, “Emílio havia sido treinado para ser um homem completo, que poderia sobreviver emocionalmente a qualquer coisa”.6ele, o vigário saboiano, seu instrutor religioso, se mostra personalidade modesta e introspectiva, cuja prática adota outro tipo de estratégia moral. Ciente de suas faltas e de sua fraqueza, o vigário busca a felicidade através do afastamento da tristeza e do erro. Ele tem plena consciência de suas limitações, reconhece que a busca da virtude é tarefa árdua e não hesita em confessar que as disputas filosóficas, e todos os tipos de especulações levadas a cabo pela razão não passam de aventuras, destinadas a conduzir o espírito humano à confusão e ao erro. Para o vigário, ao contrário disso, nós só podemos caminhar em direção à virtude quando nos deixamos orientar pela consciência, princípio inato de justiça e de virtude que nos fornece um julgamento acertado.7Profissão de fé do Vigário de Sabóia Rousseau fez questão de destacar a importância da consciência, evidenciando-a como a voz da natureza que, apesar de sufocada pela época, reivindicava o seu lugar de guia do instinto humano. É dessa voz que o vigário sai à procura quando cai em si, mergulhado nas dúvidas que colocavam em xeque seu próprio credo. Triste e confuso por não conseguir explicá-las, ele faz um exercício de interiorização e descobre que a origem dessas dúvidas estaria, em primeiro lugar, na insuficiência do espírito humano, em segund8 testemunho é um apelo para seguirmos a consciência e não a voz dos homens. A segunda estratégia moral, concretizada pelo vigário saboiano, tem um caráter pouco heróico: é apenas uma recusa do mal, fundamentada no resgate da consciência. A sua pretensão não é encarar embates difíceis, mas, ao contrário, vencer as dificuldades pequenas e corriqueiras que aos poucos conduzem o homem ao mau caminho. Por isso ele diz: 5 Men and Citizens, p.57. As estratégias seriam alternativas destinadas a “to recreate our natural freedom and inner peace by bringing our emotional resources and our external situation into alignment.”. 7 Emílio, Profissão de fé do Vigário de Sabóia, p. 390 e ss. “Devemos começar por aprender a resistir, para saber quando podemos ceder sem crime”.9 A sua personalidade mostra, por outro lado, como é possível estender o amor-próprio para uma identificação com as outras pessoas, desde que não sufoquemos dentro de nós os impulsos naturais, que, a exemplo da consciência e da piedade, “nos proporcionam uma sensibilidade ativa e moral, capaz de nos fazer amar não apenas nós mesmos, mas também A modéstia e a timoracia do vigário são partilhadas por Júlia. A exemplo daquele, esta procura o isolamento a fim de poder expressar o amor-próprio sem conflito. A estratégia é mais ou menos semelhante: para buscar o bem, deve-se evitar o mal; para ser feliz é preciso 11va ser escravo nas transgressões e livre nos remorsos, Júlia também sabe do pesar do arrependimento, e por isso mesmo, na dúvida entre fugir com Saint-Preux e aceitar o mandamento do pai, ela opta pela segunda coisa. Após Milorde Eduardo ter-lhe oferecido um recanto propício para ela viver com seu amante, ela escreve a Milorde, respondendo porque não poderia aceitar a proposta: Não se trata de saber se tenho o direito de dispor de mim contra a vontade dos autores dos meus dias, mas se de mim posso dispor sem afligi-los mortalmente, se posso fugir deles sem lançá-los no desespero. (.) Entregaria seus últimos dias à vergonha, aos pesares, aos prantos? O terror, o grito de minha consciência agitada pintar-me-iam sem cessar meu pai e minha mãe expirando sem consolação e amaldiçoando a filha ingrata que os abandona e os desonra? Não, Milorde, a virtude que abandonei abandona-me por sua vez e nada mais diz a meu coração, mas esta idéia horrível fala-me em seu lugar, ela me seguiria, para meu tormento, em cada instante de minha vida e tornar-me-ia infeliz no seio da felicidade. Enfim, se for meu destino carregar o resto de minha vida aos remorsos, somente esse é por demais terrível para suportar, prefiro enfrentar os outros. (Nova Heloísa, 2ª parte, carta VII) Além do sofrimento que o remorso pode causar, Júlia é igualmente perseguida pela voz do dever. É o dever que a faz aceitar afastar-se de Saint-Preux, e é pelo mesmo motivo que, casando-se contra a vontade, ela promete, mesmo assim, amor, fidelidade e castidade:12 verdadeiras provas de fogo. O poder da fé e o auxílio da religião vêm em seu socorro em muitas ocasiões, mas somente um espírito que se deixa guiar pela consciência consegue permanecer determinado diante das decisões mais difíceis. Por isso ela sabe, como sabe o vigário, que a virtude não é fácil de ser alcançada, e que o menor escorregão, uma vez cometido, pode levar tudo à ruína: “Perdemo-nos um único momento na vida; afastamo-nos um único passo da estrada reta. Logo um declive arrasta-nos e nos perde”.13 O estilo de vida pacato que levam Júlia e Wolmar, a região de Clarens que escolhem para viver e as próprias riquezas naturais, que contribuem para embelezar ainda mais o quadro, compõem uma imagem idílica: a do camponês simples e feliz. Neste universo, as pessoas são dóceis e simples, a generosidade e a alegria são uma constante, e o desfrute de uma vida tão tranqüila beira o tédi14iverso que Rousseau viu o lugar perfeito para a convivência em família e para uma educação doméstica. Bem longe de Paris e dos grandes centros, ali os costumes manter-se-iam íntegros, as famílias não seriam corrompidas pelo luxo e pelo poder e a opinião não assediaria a mente das pessoas. O resultado disso é uma família nos moldes da vivida por Júlia e Wolmar: convivendo sem extravagância, sem desregramento e feliz consigo mesma. Nela não há espaço para a vaidade nem a ostentação, e no seu convívio tudo está muito próximo da vida do homem natural. Sob determinado aspecto, esta utopia arraigada na família e propícia à educação doméstica, que Rousseau desenhou na Nova Heloísa, nada mais é do que a tentativa de refrear o amor-próprio nocivo, aquele que germina no seio da grande sociedade e é fonte de inúmeros danos à constituição física e psicológica dos indivíduos. Este tipo de amor-próprio é, por assim dizer, o último estágio da sociabilidade que o ser humano pode atingir. Para evitar a chegada até aí, Rousseau se inspirou na Idade de Ouro da humanidade para postular a família como um espaço perfeito para cultivar a boa, e refrear a má sociabilidade. Esta utopia se encaixa perfeitamente na imagem do vilarejo suíço e na vida campesina. Porém, na hipótese de não se poder conter o avanço da má sociabilidade, é preciso uma outra estratégia. Quando a paz rústica na qual se pode preservar o próprio eu não é mais possível, a solução então é “to lose oneself in a collectivity, in a Spartan order where a totally artificial environment recreates for each citizen the conditions of nature’s regularity and harsh disciplining order”.15 Rousseau buscou resgatar especialmente o senso cívico, cuja força era sustentada pela participação política ativa dos cidadãos, diga-se de passagem: não uma participação comum, mas uma dedicação devotada e completa. O senso cívico que interessava a Rousseau “sugaria” os interesses dos cidadãos, ocupando-lhes o tempo com atividades voltadas exclusivamente ao coletivo, como nas assembléias populares, por exemplo, em que todos têm de estar presente nas votações para não deixar enfraquecer a vontade geral. O importante aqui é perceber que os artifícios voltados à vida cívica, ocupando os homens, têm a finalidade de impedi-los de se perder em atividades danosas a si e 14 Idem, p.622. Em determinada ocasião Júlia confessa à própria prima que “a felicidade a entedia”. aos outros. O que faz a ordem espartana, portanto, não é varrer o amor-próprio nocivo, mas redirecionar suas forças, no caso, para fins públicos. Essa ordem é fundamentalmente totalizadora em dois aspectos. Em primeiro lugar porque abarca todo o contingente de indivíduos e ninguém escapa a ela: todos são cidadãos e, como tais, têm seus interesses e sua atenção apreendidos. Em segundo lugar porque o interesse do conjunto deve ser unificado, A unificação das vontades e o tipo de padronização que a vida social baseada em Esparta imprime nos indivíduos acabam por dar-lhes uma “segunda natureza”. Eles se tornam pequenas unidades fragmentárias, quase insignificantes em si mesmas, carentes de um sistema que lhes dê unidade e sentido. O exemplo clássico disso está na mãe espartana, que, mesmo perdendo seus filhos na guerra, vai ao templo agradecer aos deuses pela vitória universo particular, neste caso, é completamente suprimido em detrimento do coletivo e a ordem individual, totalmente sobrepujada pela política. Desse modo, a proposta rousseauniana de adaptação do homem à vida civil retira a sua identidade pessoal e lhe confere uma nova identidade social, que toma o orgulho, a vaidade e muitos outros desvios sociais e os transforma num programa de desnaturação, no qual eles são reutilizados para Embora o papel da participação popular seja reiterado em muitas partes da filosofia política de Rousseau, Shklar ressalta que o foco dado pelo filósofo à política não está centrado no que os cidadãos podem fazer pela cidade, mas sim no que a política pode fazer com eles.17gico porque, ao educar os indivíduos para uma vida cívica, contribui para minimizar a desigualdade e vários outros males que afligem a sociedade. Além do aspecto externo, ela também preenche os “vazios internos”, isto é, tranqüiliza o interior dos indivíduos, proporcionando-lhes motivos verdadeiramente nobres para eles viverem e buscarem. Aqueles problemas oriundos de conflitos entre a consciência, os apetites e os sentimentos a que está sujeito o homem atual não subsistem dentro desse contexto. A vida disciplinada nos moldes espartanos gera, por fim, um tipo de ordem em que o próprio esforço para se cumprir o dever é menor, haja vista o total envolvimento das pessoas com a vida social; e se o cumprimento do dever traz satisfação aos cidadãos, em termos comparativos, o cidadão espartano é muito mais feliz e satisfeito que o atual. 16 Exemplo dado por Rousseau no Emílio, p.11-12. Ao lado da educação de Emílio, a idéia de perder-se no social para uma completa integração cívica ajuda a compor as duas mais poderosas estratégias com vistas a uma boa sociabilidade, sobretudo quando se trata de enfrentar o amor-próprio no seu estágio mais crítico. Se a maneira particular como Rousseau concebeu a política converteu-se na expressão de um modelo de sociabilidade capaz de sanar inúmeras patologias sociais, seus ideais, por outro lado, tiveram a proeza de conjugar a tarefa pedagógica com a crítica. Entre as duas coisas, porém, é preciso ceder à interpretação de Shklar, quando afirma reiteradas vezes no seu estudo, que as criações de Rousseau, mais do que propostas de sociabilidade, constituem uma ferrenha crítica à sociedade de seu tempo. ROUSSEAU, J.-J. Devaneios do caminhante solitário. 3.ed. Brasília: Editora da UnB, 1995. ______________.Do contrato social e outros escritos. Col. Os Pensadores, vol.1. São Paulo: Nova Cultural, 1999. ______________.Discurso sobre a desigualdade e outros escritos. Col. Os Pensadores, vol.2. São Paulo: Nova Cultural, 1999. ______________. Emílio ou Da Educação. São Paulo, Martins Fontes, 1999. ______________. Emile e Sophie, ou Os Solitários. Porto Alegre: Paraula, 1994. ______________. Julia ou A Nova Heloísa. Campinas: Unicamp, 1994. SHKLAR, Judith. Men & Citizens; A study of Rousseau’s social theory. 2.ed. Cambridge: University Press, 1985.

Source: http://edgarrogerio.net/arquivos/sociabilidade.pdf

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